.::LABIRINTO::.

Labirinto


Autora:
@dance_monkey | Beta: @dance_monkey

Ela estava atrasada e ele estava ocupado. Sabia que Third iria comer seu fígado vivo caso chegasse atrasado, ele mesmo se odiava nas pouquíssimas vezes que perdia a hora e olha que ele era o mais certinho de todos.
Ela andava de um lado para o outro em casa, esperando qualquer notícia de que ele estivesse a caminho mas nada até o momento. Caramba, era só pegar o telefone e avisar, "Olha, estou chegando", que ela iria para o banheiro e se arrumaria. poderia matar uma de suas únicas possíveis madrinhas antes de um pedido de casamento? Ela não sabia; a amiga era meio de lua...
- Onde você está? - decidiu ela, após o telefone chamar duas vezes. Porsche levou um susto, derrubando todas as folhas em cima da mesa, procurando o aparelho celular.
- Você disse que viria me encontrar aqui e daí iríamos juntos! - ele se agachou para pegar os papéis do chão com o telefone no ombro. - Onde você está?
- Eu nem comecei a me arrumar! - quase berrou, correndo para jogar os sapatos em cima da cama e pegar o vestido do armário. - Como eu iria dirigir de salto?
- Era só você pegar um taxi! - Porsche se controlou do outro lado. Brigar não iria levar a lugar nenhum e ele sabia que ele precisava manter a calma. Quando ele e ficavam nervosos ao mesmo tempo, as coisas nunca acabavam bem. - Estou terminando de digitar um documento e voarei para casa, ok? Se arrume.
- Sabe que estamos uns 10 minutos atrasados, certo? - tirou a blusa de qualquer jeito e soltou um palavrão quando botou o pé dentro do chuveiro. A água estava congelando. Mas que época cretina tinha sido aquela para se propor casamento? Third estava maluco? E por que tão cedo também? Ele era tão novo, pra que se casar tão cedo? Não que fosse um problema, é claro, eles eram um casal adorável. Nem por um momento sentiu inveja da amiga, já que Porsche era mais devagar do que o próprio nome sugeria. Se ele fosse pedí-la em casamento, seria quando estivessem com oitenta anos e no leito de morte. - Te espero em casa.

Porsche correu como nunca. Mandou uma mensagem de desculpas para Third e colocou o audio de cinco minutos de esporro para tocar. Ao fundo, James estava rolando de tanto rir, assim como Ice, que o chamava de lerdo. Esse não perdia a chance mesmo...
Ser juíz não era uma atividade fácil. Eram diversos processos para ler, reler, ler mais umas vinte vezes e tomar uma decisão. Ele gostava de ser muito correto e sinceramente sentia até um pouco de felicidade em saber que seus amigos não o haviam abandonado, assim como sua recém namorada, . Ela era tão parecida mas tão diferente que doía. Odiavam aranhas, adoravam uma praia e de tomar cerveja no telhado. Suas maiores discussões eram por horário de dormir e por Porsche trabalhar demais. Mas ele precisava, era um dos juízes mais importantes do país, para se gabar ao mínimo.

saiu do banho dando pulinhos porque estava frio. Gelado. Escolher um vestido que ficasse legal para um jantar ao ar livre fora difícil e ela quase berrou com Third sobre a escolha. Não poderia ser num restaurante, sei lá? Não. curtia o vento. Não poderia ser de dia? Não. era como ele, uma semi vampirinha. então amaldiçoou o fato de serem tão iguais mas então lembrou que ela mesma e Porsche conseguiam ser piores.
Enfiou o vestido e quase caiu na barra, soltando os babyliss do cabelo enquanto tentava enfiava um par de brincos. Era muita coisa ao mesmo tempo e ela só esperava que Porsche já estivesse a caminho.
Estava colocando o lápis de olho quando ouviu a porta da frente fechando e Porsche chamando por ela. Como sempre acontecia, seu coração deu alguns pulinhos engraçados e pararam no estômago. Era engraçado como ele fazia com que ela parecesse uma colegial: todas as vezes que ela escutava o namorado chamando por seu nome, ela ficava vermelha. Vermelha como um tomate. Bem... tinha sido mais ou menos assim que tinham se conhecido pra valer, não era? Ela o observava sempre de longe, especialmente nas vezes que precisava ir ao fórum. Os flertes eram sutis, um "bom dia, doutora", "boa tarde, doutor", até que ele fosse aprovado para o concurso de juízes. Porsche cogitou chamá-la para um almoço mas seria muito na cara?
Até o belo dia que estava advogando para um cliente minimamente esquisito, que fora processado por ter estacionado em local proibido e havia feito um escarcéu ao buscar o carro e processara a prefeitura por um arranhão minúsculo - e a viu subindo pela mesa de Porsche. Ela era pequena e raquítica, verdade, mas o horror dela a aranhas só não era maior do que a dele. Porsche dera pausa de 15 minutos para tirarem aquele monstro de sua sessão e de procurarem por outras.
- Sinto muito, Excelentíssimo. - se abraçou, do lado de fora da sala. - Eu não conseguiria continuar, odeio aranhas.
- Eu entendo você, detesto aranhas também.
E então o papo foi desenrolado. perdeu o caso, obviamente, mas ganhou algo muito mais interessante naquele dia.

- Nossa, você está linda! - Porsche comentou ao ver a namorada com metade do rosto pintado. - Bom, na verdade você está parecendo um Picasso.
- Engraçadinho você. - ela riu com desdem. - Me passa os sapatos? Estão em cima da cama. - Porsche obedeceu, sentando-se na própria cama e observando a namorada. Como ela conseguia ser tão bonita? Ele não sabia onde havia ganhado na loteria. era uma advogada muito boa mas que nos últimos tempos estava, ou pagando penitência ou tendo uma época muito ruim. Seus processos não iam pra frente e ela pegava cada figura que ninguém acreditaria.
Porsche não se lembrava de quando havia chamado para um café. Tinha sido um café? Fora ela que tinha dito que não e mandado ele se foder? Ah, não, não era ela. Ah, sim, ele havia pego o telefone dela no dia da aranha em sua mesa. aceitara tomar um café após o expediente e o resto era estória.
No entanto agora, enquanto observava a namorada tentando fechar os sapatos altos, lembrava de quando percebera que havia se apaixonado. O sempre calado Jackie tinha resolvido fazer uma festa de aniversário para "os íntimos" e ele havia convidado . Queriam conhecer quem era a maluca que tinha se aventurado com Porsche, sabendo a loucura emocional que ele era.
Foi observando colocar um doce na boca e rir com sua irmã que Porsche teve o "momento caraca": era normal que ele ficasse observando com cara de babaca mas até Third abrir a boca, ele não tinha sacado.
- Você está de quatro! - riu. Porsche acordou do breve devaneio e olhou para Third confuso.
- Como assim?
- Não te vejo com essa cara de pão doce desde que passou para a Thammasat. - Third começou a rir para dentro. - Que panaca!
Dois dias depois Third ligou chorando para Porsche, pedindo desculpas por ter se apaixonado pela irmã dele.
Que perdedor!

- E aí, como eu estou? - abriu os braços. O vestido pastel de manguinhas finas tinha ficado perfeito, os saltos a deixavam na sua altura, os cabelos estavam maravilhosos e até o piercing no nariz estava lindo. Seu queixo caiu: aquela mulher bonita era sua namorada.
Sua.
Porsche levantou em silêncio, segurou a mão de e a observou por todos os ângulos.
- Você está ainda mais perfeita. - disse, segurando-a pela cintura e levantando um pouco. bateu em seus braços.
- Vai amassar tudo e se eu chegar amarrotada e a me matar, vou jogar a culpa toda em cima de você e volto do além pra puxar teu pé!
Porsche deu uma risada rouca ao colocá-la no chão e, ainda sem soltar sua cintura, apertou-se contra ela e a beijou forte nos lábios.
Como sempre quando Porsche a beijava, começou a suar. Porsche tinha um poder tão grande sobre ela que se ele pedisse para que ela comesse seus sapatos, ela perguntaria se ele queria que ela usasse talheres.
Ela não lembrava quando tinha se apaixonado oficialmente por Porsche, pensou por uma fração de segundo, enquanto Porsche ainda apertava seus lábios. Ah sim, lembrou: foi quando ele chegou na casa dela com uma caixa de pizza, dvd de Frozen e uma barra de chocolate do tamanho de um braço, só porque ela havia dito que estava indisposta. Eles ainda não namoravam oficialmente e ele a manteve quentinha em seu abraço "até que a cólica passasse". Foi ali que ela havia percebido o quão ferrada estava.
Bosta.

Porsche levou a mão até a lateral do vestido de , procurando pelo zíper, quando ela o empurrou de leve. Iriam se atrasar. Third ficaria furioso com ele. , que nem sabia daquela estória e achava que era apenas a comemoração do aniversário de um amigo em comum a todos, iria matá-la por saber e não contar, e pior, mataria de novo por saber, não contar e não estar presente.
- A gente poderia não ir... - começou ele, mesmo assim procurando o zíper. Que inferno de vestido! - A gente poderia dar uma desculpa qualquer e ficar em casa...
- Eu não quero ameaçar minha alma imortal para a e o Third irritados. - tentou dizer, mas era tão difícil com Porsche beijando seu pescoço que suas pernas até ficaram bambas. - Porschee... você vai acabar com todo o trabalho que tive pra me arrumar!
- Exatamente! Quanto mais você demorar pra dizer 'sim', mas difícil vai ser pra você se desvencilhar de mim.
arregalou os olhos e Porsche se agachou; seu coração quase pulou do peito, mas Porsche levantou a barra de seu vestido e logo ela sentiu suas mãos tateando seus tornozelos. Ele poderia aproveitar estar ali...
- Sabia que esses vestidos muito longos são pessimos pra se encontrar a saída? - disse ele com a voz abafada, procurando, no meio dos panos, a saída. sentiu que os pés estavam livres das tiras que a prendiam e tirou os sapatos, ainda mantendo Porsche dentro do vestido, apenas porque gostava de sacaneá-lo. - !
Ela segurou todas as barras e as levantou, rindo. Porsche fazia cara de tonto e era a única diversão dela. Adorava sua cara de tonto.
- Espero que quando a gente casar, você não use um vestido tão cheio de coisa. Eu vou acabar me irritando e rasgar o negócio todo e você não vai ter vestido para passar pra frente.
franziu a testa. Do que Porsche...?
Até que ela o viu. Era uma única pedrinha mas ela tão linda que poderia iluminar todo um país.
Porsche a olhava esperançoso. Havia criado todo um circo em cima disso; apenas não contava com os inumeros processos de última hora em cima da mesa. Seria no mínimo engraçado, não é? Ele e os rapazes já tinham organizado tudo. Não havia jantar nenhum, em lugar nenhum. Os meninos estavam na verdade em casa, enchendo a pança de cerveja e pizza, provavelmente planejando sua despedida de solteiro e entrando em paranóia sobre quem seria o primeiro padrinho. Bem, eles eram em dois mais os outros rapazes do 9x9... Ele esperava apenas que Deborah estivesse colocando ordem na casa. Pelo menos nisso ela tinha moral com Third...
A boca de abria e fechava como a de um peixinho dourado. Estava tão surpresa que tinha se esquecido de como se respirava ou de como piscava os olhos. A proposta não era para ? Será que ainda assim teria o jantar? Ela teria que colocar os sapatos de noite e enrolar os dois dedinhos pra não doer? Era mesmo um restaurante ou seria uma pizzaria? se amarrava em pizza, que nem o irmão. E Third? Ai Third iria ficar furioso!
- , meu joelho está doendo. - Porsche deu uma risadinha. - Sei que tento fazer exercícios mas tenta não abusar do meu joelhinho.
- Ai meu Deus! - levantou Porsche do chão, agora vários centímetros mais baixa que ele. - Caramba, desculpa, a minha mente parou por alguns segundos...
- Eu ia fazer um discurso todo bonitinho e bem babaca, sobre como o tempo passa rápido quando estou contigo e tudo o mais, mas acho que já que estamos só os dois, eu posso não pagar esse mico.
- Na verdade, eu iria me amarrar em ouvir esse mico, embora eu saiba que iria ficar sem graça. - Porsche segurou a mão de , que esticou os dedos enquanto segurava a respiração. Porsche empurrou o anel por entre seus dedos e os entrelaçou com os seus.
Porsche abraçou muito devagar pela cintura, ainda sem dizer palavra, e beijou sua bochecha.
- Será que agora você pode me dizer onde fica o zíper desse labirinto?

FIM


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